Cuidado com o autocuidado

Temos ouvido cada vez mais o termo autocuidado nos discursos de algumas marcas e influenciadores. Mais do que nunca o tema tem feito tanto sentido, pois nos vemos cada vez mais em busca de sanidade e equilíbrio em meio ao excesso que vivemos. Para Gioconda, o tópico em questão é extremamente valoroso e por essa razão queremos abranger a discussão sobre sua relevância e abordar como ele tem sido interpretado, muitas vezes transformado em mais um objeto-desejo de consumo, em algo que buscamos fora de nós e que precisamos para conquistar nosso bem estar. Como parte do conceito da marca, acreditamos que autocuidado pode ser muito mais acessível, podemos encontrá-lo dentro de nós mesmos e nas nossas pequenas ações cotidianas.

O que fazemos e pensamos no dia a dia reverbera diretamente na nossa saúde física e mental. Tudo que praticamos corriqueiramente e inconscientemente tem efeitos na nossa qualidade de vida, assim como o que comemos e consumimos. Portanto, revisitar nossos hábitos com atenção pode estar mais próximo do autocuidado do que o quê algum creme ou uma sessão de massagem podem oferecer. Não que essas experiências devam ser menosprezadas e descartadas, mas devem ser incorporadas como parte de um processo, algo que amplie e potencialize a percepção de nós mesmos, que aumente nosso campo de reflexão, e que possibilite o que as obrigações diárias não permitem. Em vista disso, consideramos as ações intrapessoais uma forma mais potente de autocuidado, e que o mesmo esteja relacionado muito mais à uma prática do que a objetos relativos ao cuidado, como cosméticos, chás e viagens.

 

O autocuidado está profundamente atrelado ao autoconhecimento, prática que nós exercemos através da consciência das nossas limitações e também das nossas potências. Portanto, para se cuidar é preciso se conhecer, assim como para curar uma doença é preciso entender a causa dela.  Parece óbvio, mas no fluxo urgente da vida é muito fácil acreditarmos em uma rotina de beleza como a solução para nossa baixo auto-estima. Por conta de um estilo de vida frenético que levamos, somos tendenciosamente levados a acreditar que uma receita de bem estar vale mais do que a nossa própria intuição. O óbvio na verdade, e que passa desapercebido, é que não somos condicionados a nos olhar, observar e aprender a nos curar, mas sim para alimentar um sistema que dita o que precisamos para nos sentir bem. Muitas vezes acabamos por adotar medidas que não convergem com a nossa realidade, mas sim com uma necessidade imposta, que de tanto afirmada exteriormente, acreditamos que seja nossa.

Vivemos em um momento em que é imprescindível filtrar a informação que consumimos, estabelecer critérios para absorver o que é de fato relevante para nossa emancipação intelectual, física e mental, para que então sejamos capazes de elaborar nossa própria receita de autocuidado. De longe, não é só sobre cremes e refeições leves que se trata; autocuidado envolve o árduo exercício de olhar pra dentro e uma profunda reflexão sobre nossos hábitos e vícios. É preciso se atentar às questões que permeiam as nossas essências. Quando buscamos resoluções internamente, fica mais difícil cairmos na cilada do consumo que está sempre criando “necessidades” em forma de fórmulas e produtos sob o rótulo do amor próprio, reforçando uma busca externa apoiada a uma deficiência interna.

 

 

Hoje mais do que nunca, autocuidado torna-se um ato político, ele reside no questionamento mais amplo da vida que adquirimos muitas vezes no piloto automático. Ele questiona desde a posição que você ocupa no seu emprego, na forma como você é tratada diariamente pelos colegas de trabalho até os relacionamentos que cultivamos. Autocuidado é prática diária, deve ser perene, prioridade. Não deve ser algo a qual recorremos por desespero, por estafa, ou que ganhamos como brinde após um grande desgaste físico e mental. Autocuidado trata-se de permanência, coerência e conexão. Enquanto se cuidar for um exercício extra no seu dia a dia ele será somente uma compensação para o estilo de vida doentio e o ritmo imposto permanecerá o padrão.

É fundamental também discernir quando autocuidado é só uma questão de privilégio e quando deveria ser possível à todos, principalmente por acreditarmos ser algo que não exige nenhum pré-requisito, mas sim uma disponibilidade para si mesmo. É nesse ponto que identificamos autocuidado como mote crucial para a marca, pois evoca, para além das coisas materiais, um resgate da autonomia de escolhas, de domínio das próprias decisões através do conhecimento do corpo e da natureza, que só um tempo dedicado a si mesmo pode ensinar. A calcinha da Gioconda pode representar uma forma de autocuidado, mas observe que ela pode ser só um símbolo para estampar sua auto-estima, o essencial é trabalhar o amor próprio de dentro pra fora.

 

 

 

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